O primeiro debate entre os candidatos ao governo da Bahia nas eleições de 2026 foi marcado por críticas à atual gestão estadual, questionamentos sobre administrações anteriores e apresentação de propostas para áreas como segurança pública, saúde, educação, desenvolvimento econômico e enfrentamento à violência contra a mulher. O encontro foi realizado pela Band Bahia na noite deste domingo (9) e reuniu Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, ACM Neto (União Brasil), ex-prefeito de Salvador, e Ronaldo Mansur (PSOL). A mediação foi da jornalista Carolina Rosa.
Na discussão sobre violência contra a mulher, os candidatos apresentaram propostas diferentes. Jerônimo defendeu ações preventivas, com formação de professores e atividades nas escolas para combater comportamentos machistas desde a infância. O governador também propôs ampliar a presença das políticas para as mulheres nos 417 municípios baianos, inclusive por meio de coordenações específicas onde não houver secretarias.
ACM Neto concentrou sua proposta no atendimento às vítimas e na autonomia financeira. Ele apresentou o programa “Volta por Cima”, que, segundo sua campanha, prevê auxílio financeiro por até 24 meses para mulheres de baixa renda vítimas de violência, além de qualificação profissional, empreendedorismo e apoio à inserção no mercado de trabalho. O candidato também defendeu delegacias especializadas funcionando 24 horas, punição dos agressores e monitoramento eletrônico após o cumprimento da pena.
Ronaldo Mansur também defendeu a ampliação das delegacias especializadas e do atendimento ininterrupto, além de assistência médica e psicológica às vítimas. Em sua intervenção, relacionou a violência contra as mulheres à cultura machista e patriarcal e fez críticas à direita e a Jair e Flávio Bolsonaro.
Segurança pública
A segurança foi um dos principais pontos de confronto entre Jerônimo e ACM Neto. O governador destacou investimentos feitos durante sua gestão, citando concursos públicos, contratação de profissionais, novas delegacias e unidades policiais, aquisição de viaturas e equipamentos e ampliação do sistema de videomonitoramento.
Jerônimo afirmou que foram contratados 11 mil policiais, peritos e bombeiros durante sua administração e citou a realização de operações de combate ao crime organizado. Também afirmou que as mortes violentas caíram 13% em 2025 e voltaram a apresentar redução no primeiro semestre de 2026.
“Se você quiser ver e saber se o governo ou o governante tem aquele tema como prioridade, é olhar o orçamento executado na pasta, olhar o orçamento executado aqui no Estado na área de segurança. Eu estou falando de concursos, inclusive, de dois em andamento: um preparando para o final do ano, com início do ano que vem, para a Polícia Militar, e o outro já com a Polícia Civil. Estamos falando de armas, equipamentos de porte e de qualidade, de novas delegacias, de novos pelotões e de seis mil novas viaturas entregues em três anos e meio. Estamos falando ainda de investimento em inteligência, para que possa garantir o trabalho das operações, e da melhoria e ampliação das câmeras. Eu não passo a mão na cabeça de criminoso”, afirmou Jerônimo.
ACM Neto, por sua vez, utilizou os indicadores de violência para criticar a gestão estadual e questionar a capacidade do governo de enfrentar o problema. Em outro momento do debate, Jerônimo criticou uma referência apresentada por Neto na área de segurança: Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, que havia participado de evento da Fundação Índigo, ligada ao União Brasil. Jerônimo citou a prisão de Canella com um fuzil e questionou sua escolha como referência para o setor.
Saúde e fila da regulação
Na área da saúde, Jerônimo apresentou como uma das marcas de sua administração a expansão da rede hospitalar. Segundo o governador, 15 novos hospitais foram entregues em três anos e meio, enquanto outras oito unidades estão em construção. Ele também mencionou parcerias com municípios e investimentos em policlínicas.
“Em três anos e meio, eu entreguei 15 novos hospitais e outros 8 estão sendo construídos. Além disso, existem mais 15 hospitais estaduais e municipais que são feitos em parceria com as prefeituras, como em Gandu”, afirmou o petista.
O candidato aproveitou o tema para questionar o histórico dos governos associados ao grupo político de ACM Neto e comparar a estrutura de saúde da Bahia com a de outras capitais. Também citou a participação do governo federal em obras e investimentos no setor.
ACM Neto direcionou parte de suas críticas para a chamada fila da regulação e citou casos de pacientes que, segundo ele, morreram enquanto aguardavam atendimento ou transferência hospitalar. Durante um confronto direto, afirmou que uma eventual permanência de Jerônimo no governo significaria, em sua avaliação, a continuidade dos problemas relacionados à violência e à regulação.
O governador, por sua vez, respondeu destacando as obras e a ampliação da rede pública de saúde realizadas durante sua gestão.
Educação e críticas à gestão
A educação também entrou no confronto. ACM Neto citou resultados recentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para criticar o desempenho da Bahia e atribuiu ao governo estadual a responsabilidade pelos indicadores.
O ex-prefeito de Salvador também acusou Jerônimo de transferir responsabilidades por problemas do estado para outras esferas de governo. Como exemplo, mencionou críticas feitas pelo governador sobre questões relacionadas às estradas e a atuação do governo federal.
Jerônimo respondeu destacando ações de sua administração em diferentes áreas e contrapôs seu governo ao período de gestões anteriores ligadas ao grupo político de ACM Neto.
Desenvolvimento econômico e infraestrutura
ACM Neto apresentou uma proposta de planejamento econômico regional baseada nos 27 territórios de identidade da Bahia. Segundo ele, cada região teria um plano de desenvolvimento vinculado às suas vocações produtivas e às necessidades de infraestrutura.
“Nós vamos fazer um planejamento de desenvolvimento econômico com cada região, compreendendo quais são as vocações, o potencial e o que é que precisa ser feito. As nossas obras de infraestrutura não serão obras eleitoreiras ou papéis assinados com ordem de serviço para tentar conseguir algum voto. Nós vamos ter um plano de desenvolvimento de infraestrutura vinculado às metas de crescimento econômico de cada região”, afirmou.
O candidato citou gargalos em aeroportos, rodovias, ferrovias e portos e voltou a cobrar a conclusão de projetos como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul, em Ilhéus. Neto afirmou que pretende vincular os investimentos em infraestrutura a metas de crescimento econômico e geração de empregos.
Jerônimo, por outro lado, enfatizou a interiorização de investimentos e serviços públicos realizada durante seu mandato, especialmente nas áreas de saúde e segurança, além das parcerias com municípios e com o governo federal.
Meio ambiente
No tema ambiental, Jerônimo se comprometeu a avançar na criação de uma unidade de conservação na Serra da Chapadinha, na região da Chapada Diamantina. Segundo o governador, o decreto estava em análise pela Procuradoria-Geral do Estado e a intenção é criar a unidade, que abrangeria cerca de 18 mil hectares distribuídos por três municípios.
A proposta inclui, de acordo com Jerônimo, a elaboração de um plano de gestão voltado à proteção da fauna silvestre.
Confronto entre os candidatos
Além da apresentação de propostas, o debate foi marcado por ataques políticos entre Jerônimo e ACM Neto. O governador recuperou uma declaração anterior do adversário sobre a intenção de “humilhar o governador” e afirmou que Neto mantém uma postura desrespeitosa no trato com adversários.
“Você, há um tempo atrás, disse que iria me humilhar. Sua forma de governar é essa. Tem gente que não tem jeito, porque seu coração diz isso. Seu coração quer isso, humilhar as pessoas”, afirmou Jerônimo. O governador também relacionou o comportamento atribuído a Neto à sua origem. “Você me trata assim porque a minha origem é indígena, sou negro, sou filho de vaqueiro. Como os patrões tratam os trabalhadores empregados”, declarou.
Jerônimo também associou a declaração às suas origens familiares e raciais e afirmou que não pretende governar com uma postura que classificou como pertencente ao “passado”.
Na entrevista concedida após o debate, ACM Neto foi questionado sobre a acusação. Segundo o relato apresentado pela campanha de Jerônimo, o ex-prefeito disse que não havia ouvido a declaração feita pelo governador e não comentou o episódio.
Ronaldo Mansur, que participou dos confrontos com os dois adversários, procurou inserir no debate críticas à estrutura política tradicional e à violência contra as mulheres. Em uma das intervenções, também fez referências críticas ao campo da direita.
Ao final, ACM Neto afirmou que pretende “ver a Bahia grande novamente” e apresentou sua candidatura como uma alternativa à atual administração. Jerônimo defendeu o legado de sua gestão e a continuidade das políticas implementadas desde 2023.
“Tenho compromisso com minha palavra, com minha história e com o povo que amo. Eu quero ver a Bahia grande novamente. E é por essa Bahia grande que vou lutar cada dia da minha vida se você me der oportunidade de ser governador do estado”, pediu o ex-prefeito de Salvador.
O debate da Band foi o primeiro confronto televisivo entre os três candidatos nesta campanha. A emissora também informou que o encontro foi transmitido pela televisão, rádio e plataformas digitais, com alcance para municípios do estado.











