O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) procurou o banqueiro Daniel Vorcaro nos quatro dias que antecederam a primeira prisão dele, em 17 de novembro de 2025. As tentativas de contato, extraídas pela Polícia Federal do celular apreendido com Vorcaro, mostram pedidos para que o dono do Banco Master atendesse ligações e, ao fim, lhe desse “uma luz”. A conversa foi divulgada nesta quinta-feira (24) pelo jornal Estadão.
Segundo o material obtido, cada dia teve uma investida. Em 13 de novembro, Flávio escreveu às 9h13: “Fala, mermão! Bom dia! Pode atender?”. Vorcaro disse que retornaria em meia hora, mas não houve registro de chamada. No dia seguinte, às 12h36, o senador fez uma ligação de voz não completada. Em 15 de novembro, o banqueiro justificou a ausência: “Fala, irmão. Tava trânsito voo o tem (sic)”. Flávio voltou a perguntar: “Pode atender?”.
No dia 16, outra chamada perdida foi registrada. Vorcaro alegou estar na igreja e prometeu telefonar depois. Às 15h46, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs”. O banqueiro foi preso na tarde seguinte, quando tentava embarcar no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, em um voo para o exterior. O mandado, expedido no início da tarde pela 10.ª Vara Federal de Brasília, seria cumprido em 18, mas foi antecipado sob suspeita de fuga.

A relação entre os dois começou em dezembro de 2024, mas a PF encontrou o histórico mais antigo apagado e acessou apenas os três meses finais. Nesse intervalo, Flávio cobrou o repasse de valores para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Parte das mensagens foi divulgada em maio pelo Intercept Brasil.
Em áudio de 8 de setembro de 2025, às 22h11, o senador afirmou: “Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que faz, cara, da vida, porque eu já tenho muita conta pra pagar esse mês e o mês seguinte também. E agora que é a reta final, que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara, todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Se puder me dar um toque aí, irmão”. Depois, justificou por texto: “Preferi te mandar um áudio pra você ouvir com calma aí, mermão! abs!”. Vorcaro respondeu que viabilizaria os pagamentos: “Te peço desculpas, semana passada foi muito difícil pra mim”, e completou: “Eu vou resolver amanhã”. Em seguida, houve uma chamada de WhatsApp de 2 minutos e 38 segundos, cujo conteúdo não é recuperado pela PF.

Na semana anterior, em 3 de setembro, o Banco Central havia reprovado o negócio entre o Master e o Banco Regional de Brasília (BRB), após pouco mais de cinco meses de análise. Nas semanas seguintes, os dois trataram do filme e marcaram encontros pessoais. Em novembro, quando Flávio intensificou as tentativas, já era público que a PF investigava crimes na gestão do Banco Master e crescia a pressão para que o BC liquidasse a instituição.
Anotações no celular do banqueiro indicam que ele sabia antecipadamente que seria alvo de alguma medida da PF e tentava montar um plano de fuga. Conforme a corporação, algumas mensagens foram enviadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes com pedido de ajuda para tentar frear as investigações. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro questionou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. O Estadão revelou essas mensagens no início de setembro.










