Apoio a Flávio Bolsonaro pode ampliar desgaste de ACM Neto, Bruno Reis e Ana Paula para 2028 em Salvador

Foto: Reprodução, X (antigo Twitter)/@joaoromaneto

O alinhamento do grupo político que comanda a Prefeitura de Salvador à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República pode se transformar em mais um obstáculo para os planos eleitorais para o grupo de ACM Neto (União Brasil) na disputa municipal de 2028. A decisão, oficializada nesta semana, aproxima as principais lideranças do grupo do bolsonarismo e abre espaço para questionamentos em uma capital onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém ampla vantagem eleitoral.

O movimento ocorre poucos dias depois de a vitória de Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno da eleição para o Governo da Bahia fortalecer o campo petista e reduzir a distância entre os dois principais grupos políticos em Salvador. Como mostrou o Soteropoles na análise publicada na última segunda-feira (5), o resultado das urnas ampliou as perspectivas do PT para a próxima disputa municipal, enquanto o grupo de ACM Neto passou a enfrentar novos desafios para manter sua influência na capital baiana.

Na terça-feira (6), a federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP), definiu por unanimidade o apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial. No dia seguinte, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) oficializou seu alinhamento ao candidato do PL nas redes sociais, assim como o da vice-prefeita Ana Paula Matos (União Brasil) em entrevista ao Política Ao Vivo. Já ACM Neto reforçou o posicionamento logo após reunião em Brasília, e afirmou que pretende atuar como interlocutor da Bahia junto a um eventual governo do senador.

“Flávio, eu conversei com você e fiz um pedido, o pedido de que você possa cuidar da Bahia e cuidar dos baianos”, declarou ACM Neto em vídeo divulgado nas redes sociais. Na gravação, o ex-prefeito também afirmou que pretende cobrar ações do governo federal para o estado, mesmo que o governador eleito pertença a outro partido.

Neto havia apoiado Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno e evitado antecipar seu posicionamento em relação a Flávio Bolsonaro. Agora, com a definição do segundo turno, o ex-prefeito assume publicamente a defesa da candidatura do senador e promete participar ativamente da campanha na Bahia.

Lula mantém vantagem expressiva em Salvador

O principal desafio para o grupo carlista está no perfil eleitoral da capital baiana. De acordo com os resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula recebeu 944.358 votos em Salvador no primeiro turno, realizado em 4 de outubro, o equivalente a 65,26% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro somou 391.188 votos, ou 27,03%.

A diferença de 553.170 votos evidencia a distância entre os dois candidatos na capital e ajuda a dimensionar o risco político de uma associação mais explícita ao bolsonarismo. Embora o resultado presidencial não determine automaticamente o comportamento do eleitor em uma disputa municipal, a posição assumida por ACM Neto, Bruno Reis e Ana Paula pode entrar no debate eleitoral de 2028.

O cenário também ajuda a compreender a cautela de ACM Neto durante o primeiro turno. Ao evitar uma declaração antecipada de apoio a Flávio Bolsonaro, o ex-prefeito preservou espaço para dialogar com diferentes segmentos do eleitorado baiano. Com o anúncio do segundo turno, porém, o grupo passa a ter de administrar as possíveis consequências de uma escolha que o aproxima de um campo político que enfrenta resistência de parte significativa do eleitorado soteropolitano.

A definição pode ter reflexos especialmente sobre Ana Paula Matos. Atual vice-prefeita e cotada para disputar a sucessão de Bruno Reis, ela precisa construir uma imagem eleitoral própria para além da associação ao atual grupo gestor. O apoio a Flávio Bolsonaro, confirmado por Bruno Reis, acrescenta uma variável à sua possível candidatura e pode dificultar a aproximação com eleitores que se identificam com Lula ou rejeitam o bolsonarismo.

Derrota de ACM Neto e avanço do PT ampliam disputa por Salvador

O alinhamento presidencial ocorre em um momento de reorganização das forças políticas na Bahia. No primeiro turno da eleição estadual, Jerônimo Rodrigues foi reeleito com 55,80% dos votos válidos, contra 43,72% de ACM Neto. Em Salvador, apesar de o ex-prefeito ter vencido a disputa, o petista avançou em relação a 2022 e alcançou 44,51% dos votos válidos, enquanto Neto obteve 54,32%.

A diferença entre os dois candidatos na capital caiu de 236.218 votos, em 2022, para 139.074 em 2026. O resultado indica que, embora ACM Neto mantenha força eleitoral em Salvador, o PT ampliou sua presença na cidade e chega ao próximo ciclo municipal com argumentos para tentar reverter o domínio do grupo adversário.

O grupo de ACM Neto, por sua vez, terá de administrar simultaneamente a derrota estadual do seu principal líder, a redução da vantagem sobre o PT em Salvador e os efeitos políticos do posicionamento adotado na eleição presidencial. Além de Ana Paula Matos, o deputado federal Léo Prates (Republicanos) figura entre os nomes citados nas especulações sobre a sucessão municipal.

A eleição de 2028 ainda está distante e o cenário pode mudar até o início oficial da campanha. Mesmo assim, o apoio a Flávio Bolsonaro acrescenta um novo elemento à disputa: a necessidade de conciliar a unidade do grupo político com a manutenção de uma base eleitoral ampla em Salvador. Em uma cidade onde Lula obteve mais de 65% dos votos válidos no primeiro turno, a decisão pode se tornar um dos pontos de confronto entre governistas e oposição na construção das candidaturas à Prefeitura.

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