Entenda esquema de fraude em licitações que operou por 10 anos na Prefeitura de Salvador

Foto: Lucas Moura / Secom PMS

Uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), aponta a existência de um esquema de fraude em licitações, superfaturamento de contratos, peculato, corrupção e lavagem de dinheiro que teria funcionado por cerca de dez anos dentro da Prefeitura Municipal de Salvador (PMS). Deflagrada em 13 de julho de 2026, a operação identificou um conglomerado de cinco empresas usadas alternadamente em licitações municipais para simular concorrência, além de um núcleo de agentes públicos que teria viabilizado a entrada e permanência dessas empresas em contratos da administração. O prejuízo estimado ao erário municipal é de R$ 38,3 milhões, valor que serviu de teto para o bloqueio patrimonial determinado pela Justiça.

O período investigado atravessa integralmente os dois mandatos do ex-prefeito ACM Neto (2013–2020) e os dois mandatos do atual prefeito Bruno Reis (2021 até hoje). Nenhum dos dois é investigado pessoalmente nesta operação — a apuração recai sobre servidores, um vereador licenciado e empresários apontados como responsáveis pela condução do esquema.

O que diz a investigação

Segundo a decisão da juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, da 3ª Vara das Garantias de Salvador, a organização criminosa estaria estruturada em três núcleos: empresarial, político e operacional, atuando de forma coordenada há aproximadamente uma década, principalmente dentro da Secretaria Municipal de Manutenção (Seman) e da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal/Codesal).

Um exemplo concreto citado na apuração envolve o Pregão Eletrônico nº 25/2018: contrato e aditivos que somavam inicialmente R$ 8,9 milhões terminaram com pagamentos de R$ 15,2 milhões efetivamente realizados — um acréscimo superior a 60% sem justificativa técnica considerada suficiente pelos investigadores.

As cinco empresas do conglomerado

As companhias eram usadas de forma alternada em licitações municipais para conferir aparência de competitividade a contratações direcionadas, segundo a representação do MP-BA. Juntas, receberam R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador entre 2015 e julho de 2026 — G3 Polaris e Podium Distribuidora concentram sozinhas 65,5% desse total.

Empresa CNPJ Sócio(a) formal Recebido da PMS
G3 Polaris Serviços Ltda 20.155.999/0001-55 Jandson de Carvalho Nunes R$ 124,8 milhões
Podium Distribuidora Ltda 11.258.473/0001-00 Caroline Xavier da Cruz R$ 85,5 milhões
LN Distribuidora e Comércio Ltda 07.848.730/0001-96 Lázaro de Carvalho Nunes R$ 45,4 milhões
WLSP Logística e Transportes Ltda 12.900.846/0001-67 Gilvana D’El Rei Lima R$ 37,6 milhões
MP2 Construções Ltda 24.597.344/0001-98 Patrícia de Carvalho Mendes R$ 27,7 milhões

Total combinado: R$ 321.163.273,89.

Achado exclusivo desta apuração: existe uma sexta empresa do mesmo grupo familiar, não mencionada nas peças da investigação divulgadas até o momento — a Lcj Patrimonial Ltda (CNPJ 39.501.149/0001-90), voltada a aluguel de imóveis próprios, sediada na Rua Doutor José Peroba, no bairro do Stiep. Diferente das outras cinco, nela os três nomes apontados como núcleo familiar do grupo — Lázaro de Carvalho Nunes, Caroline Xavier da Cruz e Jandson de Carvalho Nunes — aparecem juntos no contrato social, sem nenhum sócio de fachada.

Núcleo empresarial: quem controla de fato

O MP-BA aponta Lázaro de Carvalho Nunes como líder e controlador de fato do conglomerado. Caroline Xavier da Cruz, esposa de Lázaro, figura formalmente como responsável por empresas ligadas ao grupo e mantém, segundo a investigação, cerca de cem registros de Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) em nome próprio — o que ampliaria a capacidade do grupo de disputar contratos em diferentes áreas da administração municipal.

Jandson de Carvalho Nunes, que carrega o mesmo sobrenome de Lázaro, é sócio-administrador da G3 Polaris, a maior faturadora do grupo. Um quarto nome citado pelo MP-BA como um dos reais proprietários e gestores do conglomerado é Ivan Rodrigo Ferreira de Almeida — nenhum CNPJ em seu nome foi localizado nas bases públicas consultadas para este levantamento, o que chama atenção: diferentemente dos demais, ele não aparece formalmente em nenhum contrato social.

Patrícia de Carvalho Mendes, sócia-administradora da MP2 Construções com 80% do capital social segundo o contrato consolidado da empresa, e Gilvana D’El Rei Lima, administradora da WLSP, não foram citadas nominalmente pelas matérias de imprensa consultadas até a data deste release.

Núcleo político: um nome atravessa as duas gestões

A figura central do núcleo político, segundo a investigação, é Luciano Ricardo Gomes Sandes. Seu histórico dentro da estrutura municipal ilustra a continuidade do caso entre as duas administrações:

Período Gestão municipal Cargo de Luciano Sandes
Jan/2013 – Dez/2020 ACM Neto (2 mandatos) Diretor de Manutenção da Infraestrutura Urbana (Seman)
Jun/2020 – Jan/2021 Fim do mandato ACM Neto Secretário de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra)
Jan/2021 – Jan/2023 Bruno Reis (1º mandato) Secretário titular da Seman
Jan/2023 – 13/07/2026 Bruno Reis (2º mandato) Secretário de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro (SACPB)

Ou seja: Sandes ocupou cargo de comando ligado à gestão municipal de forma praticamente ininterrupta entre janeiro de 2013 e julho de 2026 — passando por três pastas diferentes e atravessando integralmente os dois mandatos de ACM Neto e os dois de Bruno Reis. Esse período coincide com a janela de aproximadamente dez anos que o MP-BA usa para descrever a duração do esquema investigado.

Nesta terça-feira, dia 14 de julho de 2026, um dia após a operação do Gaeco, o prefeito Bruno Reis anunciou Claudia Cavalcanti como nova titular da SACPB em substituição a Sandes — a primeira mudança de secretariado motivada diretamente pela investigação.

Completa o núcleo político o vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como “Gordinho da Favela” (PP), apontado pelo MP-BA como articulador dos interesses do grupo empresarial dentro da Seman e responsável por manter influência política sobre a pasta mesmo durante o exercício do mandato parlamentar. Seu mandato foi suspenso pela Justiça.

Núcleo operacional: a ponte financeira

Segundo o MP-BA, Marcelo Cerqueira de Lima, Antonio Matheus Montenegro Dourado Cardoso e Enison Oliveira Pinto seriam responsáveis pela intermediação financeira do esquema, promovendo transferências bancárias e depósitos que faziam o dinheiro circular entre as empresas do conglomerado e os destinatários finais — entre eles o fiscal de contratos José Nazareno Gonçalves, que teria recebido R$ 118,5 mil, e membros de comissão de licitação identificados como Roque Santana da Silva, Ivan Ribeiro Garces e Jaldo Gomes Vieira.

Medidas determinadas pela Justiça

  • Busca e apreensão domiciliar e empresarial em cerca de 20 endereços, entre eles os edifícios onde funcionam as sedes das empresas investigadas.
  • Bloqueio de bens até o limite de R$ 38.321.127,95, valor do prejuízo estimado ao patrimônio público.
  • Afastamento cautelar de Luciano Sandes do cargo que ocupava.
  • Suspensão do mandato do vereador George “Gordinho da Favela”.
  • Proibição de contato entre os investigados e acesso ao conteúdo de celulares, computadores e serviços de armazenamento em nuvem apreendidos.
  • Pedido de prisão preventiva de seis investigados foi apresentado pelo MP-BA e negado pela juíza, que considerou a medida desproporcional diante do bloqueio patrimonial já determinado.
  • Entre os bens apreendidos estão valores em espécie, armas de fogo, dispositivos eletrônicos e artigos de luxo, incluindo embarcações e aeronaves em nome de investigados.

O que dizem os envolvidos

A defesa do vereador George “Gordinho da Favela” informou que ele desconhece o teor da investigação, está à disposição das autoridades e confia no devido processo legal. O secretário Luciano Sandes e a empresa G3 Polaris foram procurados pela imprensa local antes da publicação das matérias consultadas para este release, mas não deram retorno.

Nos bastidores da atual gestão municipal, segundo apuração da imprensa baiana, a avaliação é de que a operação trouxe alívio: a G3 Polaris já vinha sendo internamente apontada como fonte recorrente de problemas na execução de contratos, e a Prefeitura já articulava a abertura de processo de declaração de inidoneidade contra a empresa antes mesmo da deflagração da operação.

O deputado estadual Robinson Almeida (PT) cobrou publicamente explicações do ex-prefeito ACM Neto e do atual prefeito Bruno Reis, argumentando que a magnitude temporal e financeira do esquema exige esclarecimentos sobre os mecanismos de controle interno da Prefeitura ao longo das duas gestões.

Este material consolida informações públicas — decisão judicial, matérias jornalísticas já publicadas e registros oficiais da Receita Federal — para fins de apuração jornalística. Todos os citados têm direito à presunção de inocência até decisão judicial definitiva. A investigação ainda pode sofrer alterações à medida que novos elementos sejam analisados pelo Ministério Público e pela Justiça.

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